EMANCIPAÇÃO ESPIRITUAL DO HOMEM

Pesquisadora e investigadora que sou, quando iniciei minha busca pelo conhecimento me deparei com inúmeras questões que afligiam minhas leituras. E uma das que mais me traziam indagações era como posicionar a espiritualidade e  transcendência dentro da evolução humana cientificamente relatada.

 Preciso se faz deixar claro, antes que nosso amigo leitor venha compartilhar de nossas reflexões, que nossa pesquisa é contínua e, quanto mais profundidade confere-se a cada tema, percebemos que a jornada para aquisição e sedimentação do conhecimento é lenta e a quantidade  de informações antropológicas, filosóficas, históricas, científicas a serem pesquisadas é vasta.

Neste ínterim, sem pressa e nem pretensão de esgotar qualquer assunto por nós abordado, trazemos as obras e estudos de grandes estudiosos, filósofos, teólogos, cientistas, com obras publicadas por todo o mundo, para embasar nossas reflexões.

A individualização espiritual representa o momento de transcendência do homem, o momento em que ele supera as condições da própria humanidade. Antes de individualizar-se espiritualmente, o homem apenas diferenciava-se das demais espécies de animais pela razão. Ou seja, há deuses e homens: deuses são entidades espirituais superiores, imortais, que vivem em outros mundos. Os homens são criaturas efêmeras, mortais e vivem na terra.

Com a evolução mental, que ocorre por meio do desenvolvimento econômico-social da humanidade no decorrer dos milênios, inicia-se o processo de concepção transcendente do homem.

E, para falarmos sobre a natureza transcendente[1]da concepção do homem sobre si mesmo precisaremos entender um pouco sobre o período de imanência[2]  no processo evolutivo humano.

Segundo Le Roy[3], de acordo com seu “princípio da imanência”, toda a potencialidade espiritual do homem está em desenvolvimento. Tudo o que no homem está implícito, transita para o explicito. Ou seja, a experiência da magia do homem primitivo, nas sociedades primitiva tribal de homens caçadores-coletores, de vida nômade, com presença registrada no planeta e cientificamente comprovada há mais de 30.000 anos[4]; os mitos agrários e a mitologia civilizada, no fim do período mesolítico, há cerca de 9000 anos, quando inicia o processo de vida social sedentária, com o inicio da agricultura e da criação de animais[5]; as religiões organizadas e a eclosão profética, que surgem nos grandes impérios da antiguidade, que passam de forma lenta de um horizonte agrícola para um civilizado – no oriente os impérios do Egito, da Assíria, da Babilônia, da China, da Índia, de Israel, da Pérsia,  no Ocidente, algum tempo depois, o império greco-romano[6] -; é uma sequência de fases do processo imanente , quando o homem acorda em si mesmo as forças adormecidas da alma, preparando-se para a fase da transcendência.

Segundo J. Herculano Pires[7], foi no pequeno império de Israel que as forças que se desenvolveram no período da imanência atingem seu ponto culminante. Nesse contexto, podemos observar que o próprio desenvolvimento histórico explica e justifica as afirmações místicas de  sua supremacia espiritual e de serem povo eleito por Deus. A mentalidade mística desenvolvida  no período tribal, agrícola e civilizado justifica a interpretação da posição de superioridade do povo Israel como determinação celeste, confirmada pela alegoria do Pacto da Aliança presente no Antigo Testamento, a Torá Judaica.

Hoje, podemos concluir que o pacto firmado por Deus e o povo judaico é uma simples divinização de um sistema da sociedade agrária de compromissos humanos, contudo era apenas por meio dessa alegoria que os antigos conseguiam entender e explicar uma realidade inexplicável, que era a supremacia espiritual do povo de Israel à época, e seu dever indeclinável de liderar as demais civilizações mundiais na jornada humana de transcendência espiritual.

Percebemos, em uma analise mais profunda dos fatos, que a expectativa milenária de um Messias, a ambição de domínio universal e absoluto, seja pelo povo de Israel, seja pelas seitas cristãs que surgiram do Judaísmo são resíduos do período de imanência. Para J. Herculano Pires “ A destinação messiânica de Israel não foi e não é encarada no seu sentido histórico, mas no seu aspecto teológico”.  Esta é a razão de um povo esperar há milênios de anos, o cumprimento da promessa divina, assim como as seitas cristãs modernas, que de alguma forma se julgam também herdeiras dessas promessas, insistirem em seus direitos de dominação e orientação exclusiva das consciências, na busca da salvação das almas.

No período de imanência o homem  contava apenas com seu sentimento intuitivo  para lidar com as problemáticas que a sua destinação lhe trouxeram. Por isso a necessidade da utilização de símbolos, alegorias, pois era por meio deles que a razão se traduzia. Diferentemente, no período de transcendência, o homem, que já se encontra espiritualmente desenvolvido e emancipado, não precisa das alegorias e símbolos para tratar de seu destino, vez que racionalmente possui muitos dos conhecimentos necessários para enfrentar e resolver sua destinação espiritual.

 Com certeza, muitas das problemáticas persistem e persistirão por muitos séculos ainda, como a natureza de Deus, por faltar-nos, ainda, muita capacidade de compreensão.  Mas, não podemos desconsiderar que  muito já caminhamos quando comparamos a fase da imanência à fase da transcendência, na qual nos encontramos, sem pressa. A história nos tem mostrado com as comprovações que a ciência nos traz que o processo evolutivo nos conduzirá, progressivamente, a desvendar os novos mistérios que a vida nos impõe.

A razão se apresenta para alguns como função do espírito, como um dos seus instrumentos de ação, para outros como sendo o próprio espírito. Nosso objetivo não é entrar no mérito da discussão. Pelo menos por ora.

O que não se discute é que a razão foi o instrumento utilizado pelo homem para superar os períodos primitivos e chegar onde hoje nos encontramos, libertando-se das forças naturais e puramente instintivas, conferindo-nos a capacidade de compreensão, discernimento, desenvolvimento cognitivo. Foi por meio da razão que o homem ultrapassou o período e imanência para o de transcendência, que lhe permitiu julgar-se a si mesmo e delinear as perspectivas de sua própria libertação.

O ambiente indo-europeu de miscigenação das heranças das civilizações mesopotâmicas e egípcia era propicio para o desenvolvimento da razão. Os debates teológicos do povo de Israel, com as anunciações proféticas que surgiam no decorrer dos tempos, traziam questões que perturbavam a própria ordem social existente á época. Ao mesmo tempo, na Grécia, a filosofia supera o pensamento mítico e inicia as indagações racionais. Na China surge Confúcio, na Índia védica o budismo se renova com a difusão continental do pensamento grego, assim como ocorre no mundo Romano.

O surgimento do pensamento cristão, com as proclamações feitas por Jesus acerca da natureza espiritual de Deus assim como do homem, filho de Deus, rompe as barreiras dos preconceitos tribais que dividiam a humanidade em grupos raciais ou religiosos, ensinando a universalidade do espírito.

O cristianismo por meio do uso da razão responsabiliza o homem pelos seus atos. Jesus, ao proclamar a soberania da consciência, contraria a autoridade das escrituras, dos rabinos, da tradição.

As grandes reformas ocorridas no continente indo-europeu e asiático, quais sejam, a reforma grega do Orfismo pelo Pitagorismo, a reforma indiana do Hinduímo pelo Budismo, a reforma chinesa do Taoísmo pelo Confucionismo e a reforma Síria do Judaísmo pelo Cristianismo marcam o inicio da racionalização da fé. E, neste compasso, a crença pela crença, a fé pela fé, a aceitação da tradição como verdade absoluta, o creio porque creio, começa a dar lugar ao creio porque sei.

Já no período da idade média, o passado mítico e místico da humanidade teve grande influencia no processo do desenvolvimento de uma fé racionalizada. O fideísmo da época quase fez recuar o ímpeto da razão. Jesus é transformado em novo mito, em  deus. E suas palavras, quase sempre expressadas por meio de alegorias a sua época, transformam-se em dogmas, adquirindo a força de preceitos literais e de ordenações divinas. Há um processo de sincretismo religioso que ocasiona um retrocesso no desenvolvimento racional da fé, transformando o Cristianismo em um novo domínio do mito e da mística sob a humanidade.

Apesar de o período ser hostil ao desenvolvimento da razão, esta continua a se desenvolver apesar de estar engessada e submetida ao império da fé.

Com o Renascimento,  Descartes refuta o dogmatismo medieval e proclama os direitos de pensamento, dando ensejo para o momento histórico de vitória da razão sob o fideísmo medieval, na Revolução Francesa.

Em 1793 institui-se na França o Culto da Razão, com a Deusa Razão entronizada nas cerimônias festivas. As tradições e os ídolos caiam. O homem mais uma vez libertava-se da fé dogmática  para usar o raciocínio conquistado através dos milênios. Foi assim que o espírito reagiu contra as asfixias das tradições.

Nesse contexto, surgem Espinosa com sua interpretação panteísta dom cosmos, Comte com a religião da humanidade, contribuindo no rompimento da religião estática e dando ensejo e embasamento ao surgimento da religiões  dinâmicas.

A Reforma de Lutero a Zwinglio, Calvino e Henrique VIII, rompem as estruturas religiosas que se baseavam nas doutrinarias, nas dogmáticas cristãs, na estrutura litúrgica e sacerdotal que a igreja católica adotara como forma a asfixiar a racionalização das ideias medievais.

É assim, que os principio racionais trazidos por Jesus Cristo, há mais de dois milênios encontram subsídios para se desenvolver de maneira dialética nos processos históricos que se apresentaram no decorrer dos anos. Em uma crença com base no conhecimento e na sabedoria, o processo dialético se fez imprescindível para a consubstanciação de uma fé racionalizada, transcendente, em que o homem julga-se a si mesmo e traça as perspectivas de sua própria libertação.

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[1] Transcendência é um termo que, em filosofia, pode conduzir a três diferentes – embora relacionados – significados, todos eles originários da raiz latina que significa ‘ascender’ ou ‘indo além’, sendo um significado oriundo da filosofia antiga; outro, da filosofia medieval, e o último, ligado à filosofia moderna.

Na filosofia moderna e atual, Kant deu, a transcendental, um novo significado em sua teoria do conhecimento, preocupado com as possibilidades condicionais do próprio conhecimento. Para ele, “transcendental” significa conhecimento sobre a nossa faculdade cognitiva com respeito a como os objetos são possíveis a priori. Isto é, algo é transcendental se tem um papel no modo como a mente“constitui” os objetos e faz possível, a nós, experimentá-los como objetos em primeiro lugar. Normalmente, conhecimento é o saber sobre um objeto; conhecimento transcendental é o saber sobre como é possível, para nós, experimentarmos estes objetos como objetos. Isto se baseia no conceito de Kant sobre o argumento de David Hume de que certas características do objeto (tais como a persistência, relações causais) não podem derivar da impressão que temos deles. Kant argumenta que a mente deve contribuir para estas características e tornar possível, para nós, experimentarmos os objetos como objetos. Na parte central da sua Crítica da Razão Pura, a “Dedução Transcendental das Categorias”, Kant argumenta que há uma profunda interconexão entre a habilidade de estar autoconsciente e a habilidade de experimentar o mundo de objetos. Embora, no processo de síntese, a mente gere ambos: a estrutura dos objetos e a sua própria unidade. Para Kant, a “transcendência”, se opõem ao “transcendental“, é o que jaz além da nossa capacidade de conhecimento legitimamente conhecido. A contra-argumentação de Hegel a Kant foi que, para conhecer a fronteira e estar consciente de que ela é a fronteira, nós já transcendemos a ela.

Em fenomenologia, o “transcendente” é aquilo que transcende a nossa própria consciência – aquilo que é objetivo, mais do que apenas fenômeno da consciência. (wikipedia. Cenatti, Márcio José (2013). Homem, ser de transcendência. [S.l.: s.n.] ISBN 97885819713088)

[2] Imanência é um conceito filosófico e metafísico que designa o caráter daquilo que tem em si o próprio princípio e fim.

No panteísmo e no pampsiquismo, o termo “imanência” é entendido como uma força divina ou o ser divino que permeia todas as coisas. – ou seja, a divindade estaria inseparavelmente presente em todas as coisas. Nesse sentido, imanência se opõe a transcendência, entendida como a divindade sendo separada ou transcendente ao mundo. Segundo o atualismo de Giovanni Gentile, a imanência do sujeito é identificada com a transcendência sobre o mundo material. As filosofias de Giordano Bruno, Baruch Espinoza e, possivelmente, Hegel foram filosofias de imanência, assim como o estoicismo. Filosofias transcendentes são, por exemplo, tomismo ou a tradição aristotélica. Gilles Deleuze qualifica Espinoza como o “príncipe dos filósofos” por sua teoria de imanência, expressa na Ética e resumida na famosa locução “Deus sive Natura” (“Deus, ou seja a Natureza”): Deus é Natureza, Natureza é Deus. Tal teoria considera que não há transcendência, ou seja, um princípio ou uma causa externa do mundo; o processo da produção da vida está contido na própria vida.[1] Quando combinada com idealismo, a teoria da imanência qualifica-se como “o mundo” que não tem nenhuma causa externa além da mente.

No contexto da teoria de Kant, o conhecimento da imanência significa manter-se nos limites da experiência possível.

O filósofo contemporâneo Gilles Deleuze usou o termo “imanência” para se referir a sua “filosofia empirista”, na qual foi obrigado a criar ação, o que resultou algo além do que a transcendência estabelecia. Seu texto final, intitulado Imanência: uma vida…, [2]fala de um plano de imanência. Giorgio Agamben escreve em A comunidade que vem (1993) : “Há, de fato, algo que o homem é e tem de ser, mas este algo não é uma essência, não é propriamente uma coisa: é o simples fato da sua própria existência como possibilidade ou potência.

Adentrando mais especificamente na imanência dentro da religião, ao prestar culto, um pesquisador pela imanência se pode achar Deus dentro de si procurando-o. Este conceito é usado frequentemente no hinduísmo para descrever o relacionamento de Brâman, ou Ser Cósmico, no mundo material. (como demonstrado em teísmo monístico). O hinduísmo define Brâman como ambos transcendente e imanente – variando a ênfase destas qualidades de acordo com cada ramo filosóficas dentro desta religião. (wikipedia)

[3] Édouard Louis Emmanuel Julien Le Roy, matemático, cientista e filósofo francês do final do século XIX (mais precisamente 1870) a meados do século XX (mais precisamente 1950)

[4] OSBORNE, Roger. Civilização, Uma Nova historia do Mundo ocidental. Ed Bertrand Brasil Ltda. RJ, 2016

[5] OSBORNE, Roger. Civilização, Uma Nova historia do Mundo ocidental. Ed Bertrand Brasil Ltda. RJ, 2016

[6] PIRES, J. Herculano. O Espirito e o tempo. Ed Paideia, 12ª Ed., SP, 2016.

[7] PIRES, J. Herculano. O Espirito e o tempo. Ed Paideia, 12ª Ed., SP, 2016.

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